30 de novembro de 2008

Servico Biblico Latino Americano

Domingo, 30 de novembro de 2008
1º Domingo do Advento (Começa o Ano B)

Santos do Dia: Santo André (Apóstolo), Arnaldo de Gemblours (abade), Cástulo e Euprépio (mártires), Constâncio de Roma (presbítero), Justina de Constantinopla (virgem, mártir), Maura de Constantinopla (virgem, mártir), Sapor de Beth-Nictor, Isaac de Beth-Seleucia e Companheiros (bispos, mártires), Trojano de Tréguier (bispo), Tugal de Tréguier (abade, bispo).

Primeira Leitura: Isaías 63,16b-17.19b; 64,2b-7
Ah! se rompesses os céus e descesses!
Salmo Responsorial: Sl 79(80),2ac.3b.15-16.18-19 (R. 4)
Iluminai a vossa face sobre nós, convertei-nos, para que sejamos salvos!
Segunda Leitura: 1Coríntios 1,3-9
Esperamos a revelação de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Evangelho: Marcos 13,33-37
Vigiai: não sabeis quando o dono da casa vem.

A comunidade judaica que retorna do exílio enfrenta um grande desafio: reconstruir os fundamentos da nação, a cidade e o Templo. Não era uma fácil tarefa. A maioria dos exilados já se havia organizado na Babilônia e em outras regiões do império caldeu. A maior parte dos que tinham chegado da Judéia cinquenta anos antes já haviam morrido e os descendentes não sentiam grande saudade pela terra de seus pais. Os profetas os haviam convidado continuamente a reconhecer os erros que haviam conduzido à ruína, mas a maior parte dos exilados ignoravam os mediadores de Javé.

Alguns tomaram entre suas mãos o projeto de reconstruir sua identidade, as instituições e a vida da nação. Contudo, não contaram inicialmente com muito apoio. Parecia uma idéia louca e desnecessária: para que voltar a Jerusalém se já não havia remédio?...

O mesmo nos ocorre às vezes a nós, vivemos da saudade do passado mas não nos comprometemos a transformar a realidade do presente. Recordamos outros tempos em que se vivia melhor, mas não resgatamos os valores que tornam possível uma convivência humana justa e equitativa.
Jesus faz a seus discípulos uma recomendação que hoje nos surpreende: mantermo-nos despertos. Bem ao contrário do que faríamos! Mas ele tem suas razões. Se cada dia estivermos paralisados pelas preocupações mais supérfluas, o mais seguro é que se nos passe a hora apropriada para realizar a missão que Jesus nos encomenda.

Jesus, no evangelho, nos ensina a estar em guarda contra os que creem que os ensinamentos cristãos são algo supérfluo. O evangelho deve ser proclamado onde for necessário, deve ser colocado onde seja visto, deve se pôr ao alcance de todos. Nossa missão é fazer do evangelho uma lâmpada que ilumine o caminho da vida e nos mantenha em atitude vigilante.

A interpretação que se dava a estes textos do evangelho que apontam para o futuro ou para a escatologia esteve quase sempre revestida de um matiz apocalíptico e de temor: o Senhor havia estabelecido um prazo, que se nos poderia acabar em qualquer momento, imprevisivelmente, pelo qual necessitávamos de estar preparados para um julgamento de surpresa e de castigo que o Senhor poderia abrir em qualquer momento contra nós. "Que a morte nos surpreenda confessados"!

Este medo funcionou durante muito tempo, durante tantos séculos como durou uma imagem mítica de Deus, excessivamente calcada da imagem do senhor soberano feudal que dispõe despoticamente sobre seus súditos.

O medo da condenação eterna, tão impregnado na sociedade cristã medieval e barroca, fez que a "greve de confessionários" pudesse ter sido em determinados momentos uma arma esgrimida pelo clero contra  as classes altas, por exemplo por parte dos missionários defensores do povo contra os conquistadores espanhóis, donos dos escravos. Provoca sorrisos pensar na eficácia que uma tal "greve de confessionários"poderia ter hoje em dia... E é que a estrela da "vida eterna", o dilema da salvação/condenação eternas, brilhava com seu poder indiscutível no firmamento da cosmovisão do homem e da mulher pré-modernos.

Mas são tempos idos. Seria um erro enfocar o comentário a evangelhos como o que hoje lemos, nessa mesma perspectiva, pensando que nossos contemporâneos são ainda pré-modernos...

O estado de alerta, o olhar atento para o futuro que evita a vulgarização ou a rotina... que é uma categoria e uma dimensão do homem e da mulher modernos. Se o interpretamos como "esperança", a pertinência da mensagem ainda é mais vigente.

Que pode significar "Advento" para a sociedade atual? Como nome de um tempo litúrgico significa bem pouco, e não haveria que se lamentar muito nem gastar pólvora inutilmente, pois qualquer dia – talvez mais cedo que tarde – a Igreja mudará o esquema dos círculos da liturgia, que clama aos gritos por uma renovação.

O que importa não é o tempo litúrgico, mas o Advento mesmo, a "Chegada" – que é o significado da palavra – , o "noch nicht Sein" que diria Ernst Bloch, aquilo cuja forma de ser consiste em "não ser ainda mas tratando de chegar a ser"... Ateu como era, Bloch construiu toda o seu poderoso edifício filosófico sobre a base da utopia e a esperança, e apresentou em belas páginas inesquecíveis a grandeza heróica do santo e do mártir ateu, capaz de dar a vida em altares de sua esperança... Ebelling, na mesma linha dizia: "o mais real do real, não é a realidade mesma, mas suas possibilidades"...

Depois dos anos 90 passados, estamos em um tempo no qual se deu um "desfalecimento utópico". Com o triunfo do neoliberalismo e a derrota das utopias (não "das ideologias", alguma das quais continuam muito vivas), a cultura moderna – ou melhor, pós-moderna – castiga o pensamento esperançoso e utopista. O ser humano moderno-pós-moderno está ressabiado. Já não crê em "grandes relatos". Se nos foi imposta uma cultura antiutópica, antimessiânica, a-escatológica, sem esperança?, apesar do brilho de que se vangloriam os produtos da indústria mundial do divertimento; por trás da atração sedutora desse divertimento, a imagem do ser humano que fica está em jejum de toda esperança que transcenda sequer minimamente o "carpe diem" ou o "desfruta esta vida".

Que advento ("chegada") espera o homem e a mulher contemporâneos? Como viver o advento numa sociedade que não espera nenhuma "chegada"? Desde já, não reduzindo o advento a um "tempo litúrgico", ou a um tempo pré-natal... Como então?

O Advento esperado pelos cristãos não é o Natal... Nem sequer é "o céu"... É o Reino! Não é outro mundo... É este mesmo mundo... mas "totalmente outro"! Pode-se ser cristão sem celebrar o advento, mas não sem preparar a "Chegada"! Ser cristão é tornar própria no coração a saudade d'Aquele que dizia "vim trazer o fogo à terra, e como desejo que ele arda...!". Os cristãos não podem inculturar-se de todo nesta cultura antiutópica e sem "grandes relatos", porque somos filhos da grande Utopia da Causa de Jesus, e temos o "grande relato" do Projeto de Deus... Poderíamos não celebrar o advento, mas não podemos deixar de dar-nos as mãos com os santos e mártires ateus (restam poucos) e com todos os homens e mulheres da terra, de qualquer religião do Planeta, para trabalhar denodadamente pela "Chegada" do Novo Mundo.

Cada vez se desenha melhor: criar um Mundo Novo, fraterno-social e solidário, sem impérios nem instituições multinacionais ou mundiais exploradoras dos pobres, o que Jesus chamou "malkuta Yahvé", Reino de Deus, mas dito com palavra e ações deste já terceiro milênio, essa é a "Chegada" que esperamos, o sonho que nos tira o sono, o que nos faz ficar em "alerta".

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