23 de novembro de 2008

Servico Biblico Latino Americano

Domingo, 23 de novembro de 2008
34º Domingo do Tempo Comum
Jesus Cristo, Rei do Universo

Santos do Dia: São Clemente I (papa, mártir), São Columbano, (abade), Anfilóquio de Icônio (bispo), Clemente de Metz (bispo), Felicidade de Roma (mártir), Gregório de Girgenti (bispo), Lucrécia de Mérida (virgem, mártir), Paterniano de Fermo (bispo), Paulino de Wales (monge), Sisínio de Cízico (bispo), Trudo de Herbaye (presbítero), Vulfetrudes de Nivelle (abadessa).

Primeira Leitura: Ezequiel 34, 11-12.15-17
Quanto a vós minhas ovelhas farei justiça entre uma ovelha e outra.
Salmo Responsorial: Sl 22(23), 1-2a. 2b-3.5-6 (R. 1)
O Senhor é o pastor que me conduz; não me falta coisa alguma.
Segunda Leitura: 1Coríntios 15,20-26.28
Entregará a realeza a Deus.
Evangelho: Mateus 25,31-46
Assentar-se-á em seu trono glorioso.

Problemática pastoral concreta da festividade de Cristo Rei
Vamos começar removendo obstáculos. Há alguma problemática em torno dos possíveis significados desta festa. Examinemos alguns:

a) A origem da festa e seu contexto original. Esta festa foi estabelecida num contexto anterior ao Vaticano II, em 1925, por Pio XI, e com um espírito muito próximo ao de cristandade, quando o Vaticano expressava claramente seu desejo de que o cristianismo fosse a religião oficial, a religião dos Estados cristãos. Ao confessar a Cristo como Rei universal se queria com isso veicular o desejo de que também a Igreja fosse testemunha e participante já aqui na terra dessa realeza: uma realeza de Cristo reconhecida redundava inevitavelmente numa Igreja respeitada, favorecida pelo Estado, com alto status na sociedade, forte e organizada, que embora não pudesse já revestir-se do poder político temporal, ao menos poderia participar dele por uma relação estreita e harmoniosa com os poderes sociais. Durante muito tempo, o título de "Cristo Rei", o "reinado social do Coração de Jesus"... incluíram esses aspectos de autoexaltação da Igreja, esquecendo que a prática de Jesus de Nazaré foi muito diferente, inclusive totalmente contrária.

b) O conceito de Reino-monárquico. O Reino não é hoje em dia a forma mais frequente de organização sociopolítica. A maior parte dos países são repúblicas, de diferentes rostos e os reinos que persistem já não o são – em sua maior parte – em sua forma clássica, mas com adaptações à mentalidade atual (por exemplo, as monarquias "parlamentares") que, ao superá-la, negam no fundo a essência mesma do que é um "reino".
Embora conscientes da limitação inevitável que toda linguagem teológica tem por sua mesma natureza analógica, figurada, simbólica, apofática... cada vez mais se vem insistindo em que a palavra "reino" não seria a mais adequada nesta altura da história na qual já não expressa uma forma de organização sociopolítica desejável para os humanos. Cada vez se evidencia mais a dificuldade de falar de Deus (e de Cristo) como "rei", e de seu projeto escatológico como um "reino". Estamos seguros de que um reino, uma monarquia poderia ser uma analogia do "Reino de Deus" realizado? Ou em muitos aspectos a realização do reino de Deus exigiria a superação de muito do que na sociedade se pareça a uma monarquia, a um "reino"? Uma comunidade pode ser comparada com um "reino", com uma "monarquia"? E uma família?
Pablo Suess tem proposto a expressão "democracia participativa do RD" para corrigir a evocação que o termo clássico suporta. Já sabemos que não se pode simplesmente substituir uma expressão por outra, mas é evidente que é bom aludir com frequência para essa insuficiência da expressão clássica, para fazer cair na conta aos ouvintes, e para libertar o conteúdo (o reino mesmo, o signficado), das limitações do significante (a palavra não completamente adequada).
Para falar do Reino pode ser melhor falar do Projeto, da Utopia de Deus... que tornamos nossa: queremos "construir a Democracia de Deus, cósmica, pluralista e inclusiva, e por isso, amorosa, encarnação vida do Deus dos mil rostos, cores, gêneros, culturas, etnias, sentidos..."

c) Conotação de gênero na palavra "Reino".
É útil saber que no âmbito da teologia feminista de língua inglesa se rechaça também a expressão (God's Kingdom) por causa de seu machismo. Em castelhano não existe o problema, mas o saber que existe em outras línguas convida a preveni-lo em sem uso consciente.

Os grandes temas da festa de hoje e da semana
Há várias grandes temas que poderiam servir para orientar a reflexão da homilia ou a reflexão do círculo bíblico ou da comunidade cristã em torno dos textos deste domingo. Podem-se escolher algum dentres eles. Eis algumas sugestões:

a) O Reino de Deus, como conteúdo da mensagem de Jesus. Jesus nunca se proclamou Rei: pelo contrário. O que Jesus fez foi pôr-se ao serviço total do Reino, de forma que este foi o centro mesmo de sua pregação e de sua vida, a Causa pela qual deu a vida. Importa, pois, sublinhar esta identidade verdadeira de Jesus.
Jesus falou do Reino, foi seu servidor e seu mensageiro, mas seus seguidores se esqueceram do Reino e o tornaram Reino mesmo, com Rei e tudo... A mensagem foi substituída pelo mensageiro. É preciso voltar a Jesus..
Para falar concretamente do Reino é bom reparar no texto do prefácio desta festa, que faz um "descrição" muito plástica de seu conteúdo. Essa idéia foi utilizada no conhecido estribilho do Salmo 71 do compositor Manzano, que diz: "Teu Reino é Vida, teu Reino é Verdade, teu Reino é Justiça... é Paz... é Graça... é amor, venha a nós teu Reino, Senhor". Bem glosada, e devidamente justificada essa perspectiva teológica, pode ser um bom guia para a homilia. E não deveria faltar esse cântico na celebração de hoje.

b) A relação entre cristocentrismo e reinocentrismo. Uma certa interpretação desta festa – muito comum pelos demais no cristianismo em geral – propicia um cristocentrismo exagerado, absoluto, que não faz justiça à verdade da revelação, à mensagem real de Jesus, ao que disse, não ao que depois dissemos que disse. Importa, pois, pastoralmente discernir a correta hierarquia de valores, que hoje mais e mais se dá em chamar-se "reinocentrismo".

c) O messianismo de Jesus. A aclamação ou a espera de Jesus como Rei se deu no contexto do messianismo: esperava-se um libertador. Hoje a prostração é tal que nem sequer se espera nada, podendo fazer da aclamação de Jesus como Rei algo bem distante do que o messias significava realmente para os que o esperavam.

d) A dimensão escatológica: o final dos tempos, nosso ineludível caminhar na história, o "juízo final"... O final do ano litúrgico nos faz tematizar em nossa reflexão o final mesmo da história, e o final também de nossas vidas pessoais.

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